A cultura popular foi quase sempre moldada por expoentes artísticos de grandes cidades, geralmente de classes abastadas e que não necessariamente mostravam em seus trabalhos as suas raízes. Mostrar raízes, enaltecer o lugar de onde se vem as vezes é sinônimo de vergonha para muitas pessoas por aí. O novo gênero da internet “Y’allternative” quer mudar tudo isso. Lembrando: toda cultura terá sua contracultura.
Vejam bem, eu nasci em uma cidade no interior do sul do Brasil, chamada Curitibanos, na serra de Santa Catarina. A cultura popular aqui é muito influenciada pela cultura gaúcha e pela cultura paranaense, que tem como símbolos o homem trajado de cavaleiro, a bravura e a “macheza” de seu povo. Eu, como vocês devem imaginar, repudiei tudo isso e queria ser o exato oposto.
Senta que lá vem a aula de história.
O gaúcho surgiu da miscigenação de índios, portugueses e espanhóis, e por muito tempo esse povo que morava aqui pelo sul do Brasil era nômade e muito aventureiro. Vivia andando por aí em seus cavalos e precisava ser muito valente pra se defender, conseguir comida e um lugar pra repousar (inclusive na minha cidade tem um lugar chamado Pouso do Tropeiro, um lugar onde as tropas podiam dormir). Esses gaúchos, quando começaram a fixar residência em algum lugar, iniciaram um processo de muito orgulho e felicidade pelo pedaço de terra que haviam conseguido, e não iriam sair dali muito fácil, então esses “personagens” sempre foram muito participativos na política local manifestando a revolta do povo e a bravura com a qual iriam lutar pra defender o que tinham.
Várias guerras e diversos choques contra o governo da época aconteceram, mas o que quero exaltar aqui é algo muito comum para povos que descendem dessa formação: a força, a coragem, a bravura e a “macheza” de seus HOMENS. Não estigmatizando, mas já estigmatizando, são lugares onde a cultura ficou especialmente machista e conservadora, pois todos que nascem nessa cultura, tem a “obrigação” de manter as tradições vivas e honrar a terra e a família de que vem.
Sempre (ou quase sempre) que a gente envolve tradicionalismo na cultura popular, o resultado é meio rígido, meio “””””ditador””””, e isso acontece de uma forma bastante sutil e surge muito da vontade da família em mostrar formas de se divertir e ver a vida que já são comuns pra eles. Ou seja: comidas que a família come, músicas que ouvem, artistas que gostam e tudo o que isso representa pra cultura.
Quando a cultura de massa começa a se globalizar e a gente começa a ser “afetado” por culturas distantes, consequentemente as “tradições” podem mudar (vide imigrações aqui no sul também). Novas formas de viver e curtir a vida, se vestir, comer, ouvir música, podem aparecer e isso pode soar como uma ameaça a forma tradicional de viver. Falei um pouco disso no post do Cottagecore, você pode ler mais sobre isso clicando aqui.
Os jovens dessas regiões são seres humanos comuns, que nascem em famílias comuns e que vivem vidas comuns. Mas quando alguém nasce com qualquer “diferença” (e decide explorar essa diferença), é bastante fácil esse ser humaninho ser ostracizado de certa forma, pois ele herda uma cultura e tradição riquíssima e poderosa, onde já se viu abrir mão dela?
Mas o que seria do progresso se não fossem os jovens, né? Mandando aquele alô pros Hippies, pros Punks, e pra todo contracultura que já surgiu e que vai surgir.
Jovens que nascem em regiões marcadas pela tradição podem enfrentar mais dificuldades na hora de se expressar, mas isso não impede que diversas formas de viver a vida surjam a partir disso. É comum ver esse “fenômeno” na população LGBTQIA+ que por si só já “desafia” a tradição e os “bons costumes” e sempre teve que procurar grupos e culturas que muito mais que os aceitassem, os celebrassem!
O termo Y’allternative se refere a qualquer pessoa que tenha raízes rurais/sertanejas/do campo e que incorporou ao seu estilo de vida, maneiras “alternativas” de curtir e viver a vida. É uma forma de celebrar as raízes e mostrar que esses espaços considerados conservadores podem sim ter participação na cultura. Abandonar o classismo e abraçar as raízes!
O termo surgiu nos EUA e mistura a expressão sulista americana YALL (you all, “todos vocês”) com “alternative” (alternativo). É o encontro das raízes tradicionais, mas em expressões mais modernas e desafiadoras à tradição!
Essa tendência/micro gênero surgiu no TikTok e se expressa na moda e na música de forma mais forte mas é possível encontrar pessoas venerando expressões dessas regiões, comidas, costumes e várias outras vertentes das culturas sulistas americanas.
As referências estéticas que temos é a persona do cowboy, do vaqueiro, da pessoa do campo mas que no fone de ouvido está ouvindo Rock and Roll! Uma pessoa “Y’allternative” usa chapéu de cowboy, bota de montaria, calça jeans, camisa de banda, spikes e lápis preto no olho (não necessariamente, isso foi só um exemplo).
A música mistura o country com pop e com rock and roll, e confere as produções, um estilo muito próprio e poderoso. A moda tá roubando os acessórios dos cowboys e deixando eles muito mais fashion!
Acho legal a gente observar esses movimentos da internet como fontes de inspiração para diversas formas de arte e maneiras de viver. O “y’allternative” já está bastante em alta e provavelmente vai continuar influenciando a música e a moda contemporânea. É possivelmente a jornada da cultura de massa voltando a olhar para a cultura sertaneja.
Aqui no Brasil, o “queernejo” é um subgênero do tradicional sertanejo que contempla artistas que se expressam através dessa cultura, mas subvertem a estética e as composições para histórias que conversem mais com eles. O Gabeu, filho do cantor sertanejo Solimões, é um dos expoentes desse gênero na internet!
Outras referências




Referências
https://www.urbandictionary.com/define.php?term=Yallternative
https://www.vice.com/en/article/pkbpgz/yallternative-tiktokers-are-a-little-bit-country-little-bit-rock-n-roll
https://www.tiktok.com/tag/yallternative?lang=en&is_copy_url=1&is_from_webapp=v1
http://www.stargrill.com.br/a-origem.html
http://origem-gaucha.blogspot.com/2011/11/cultura-gaucha.html





